Estudantes do 3º ano da Escola Municipal Francisco Maia de Amorim, na zona leste de Manaus, transformaram o projeto “Órfãos do Feminicídio”, da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), em tema da 14ª Feira Municipal de Ciências, Tecnologia e Educação Ambiental. A iniciativa partiu da professora Edvania Marinho, que acompanha o trabalho do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem).
Durante a preparação, os alunos pesquisaram os impactos do feminicídio na vida dos filhos das vítimas e refletiram sobre a importância da prevenção da violência contra a mulher desde a infância. “A importância desse trabalho está no fato de que essas crianças também são vítimas da violência. Escolhi esse tema para que elas cresçam sabendo que isso não pode ser normalizado. Muitas vezes, recebemos alunos que já chegam à escola com traumas provocados pela violência dentro de casa, e a escola precisa estar preparada para acolhê-los e identificar esses sinais. A conscientização começa aqui e pode chegar à sociedade”, afirma a professora.
Promovida pela Secretaria Municipal de Educação (Semed), a feira teve como tema: “Da memória à inovação: o protagonismo feminino na conexão entre a tradição e a ciência”. Toda a turma participou da produção do projeto, elaborando cartazes, um diário de bordo e outros materiais. O trabalho foi selecionado para avançar para a etapa municipal.
A iniciativa também mobilizou as famílias. Luciene de Oliveira, mãe da estudante Lara, de 9 anos, acompanhou o processo e conta que o tema passou a fazer parte das conversas em casa. “Quando a professora falou sobre essas crianças e sobre a importância do acolhimento, fui conversar com a minha filha e explicar como elas precisam ser recebidas. Desde então, ela levou esse aprendizado para os vizinhos e para os amigos. É um assunto que deveria ser trabalhado há muito tempo, porque faz as crianças crescerem com um olhar de respeito e cuidado com quem passa por essa realidade”, disse.
Dados do site CrimeBrasil.com apontam que a zona leste, região mais populosa e periférica de Manaus, concentra a maior parte da violência letal da capital. O bairro Jorge Teixeira registrou 215 homicídios entre 2023 e 2025, o maior número da cidade no período, seguido pelo Novo Aleixo, com 138 casos. Para a gestora da escola, Maria Souza, a atividade dialoga com a realidade da comunidade. “Nós estamos numa região que enfrenta muitos desafios relacionados à violência. Por isso, buscamos levar essa conscientização não apenas para dentro da escola, mas também para a comunidade”, pontua.
Além da feira, cerca de 40 estudantes participaram de uma caminhada pelas ruas da comunidade, distribuindo panfletos e conversando com moradores sobre prevenção da violência contra a mulher e os impactos do feminicídio na vida das crianças. A defensora Caroline Braz, idealizadora do projeto, destaca a importância da educação em direitos para romper o ciclo da violência. “É emocionante ver crianças tão pequenas compreendendo que a violência contra a mulher não afeta apenas as vítimas, mas também seus filhos. Esses estudantes estão ajudando a tirar os órfãos do feminicídio da invisibilidade e mostrando que esse assunto não pode ficar escondido debaixo do tapete”, afirma.
O projeto “Órfãos do Feminicídio”, do Nudem da DPE-AM, presta atendimento especializado a crianças e adolescentes que perderam as mães em decorrência do feminicídio, articulando a rede de proteção para garantir acesso a direitos e acompanhamento adequado. A iniciativa conquistou, em 2021, o Prêmio Innovare, um dos principais reconhecimentos do sistema de Justiça brasileiro.