O mês de agosto é dedicado à valorização das culturas, saberes, identidades e direitos dos povos indígenas, com destaque para o Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado em 9 de agosto, instituído pela ONU em 1994. Nesse contexto, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) desenvolve uma série de iniciativas para fortalecer a presença indígena no ensino superior.
As ações da Ufam abrangem ensino, pesquisa e extensão, incluindo formação de professores, acesso à pós-graduação, valorização de conhecimentos tradicionais e diálogo com comunidades indígenas. Segundo o professor Gileandro Pedro, do povo Garani Kaiowa, diretor do Departamento de Políticas Afirmativas da Pró-Reitoria de Extensão, a universidade atua por meio de políticas afirmativas, processos seletivos específicos e programas de permanência estudantil.
“Quando falamos em inclusão e permanência da população indígena na Universidade, precisamos pensar no acesso e também para além do acesso. É fundamental garantir políticas afirmativas que assegurem condições para que esses estudantes permaneçam e concluam sua formação acadêmica”, destacou.
Uma das principais ferramentas é a Bolsa Permanência, no valor de R$ 1.400, destinada a estudantes indígenas e quilombolas, com inscrições abertas até 25 de novembro pelo Sistema de Gestão da Bolsa Permanência (SisBP). As vagas estão distribuídas nos campi de Benjamin Constant, Coari, Humaitá, Manaus, Itacoatiara e Parintins, e os candidatos devem estar matriculados em curso presencial, comprovar condição indígena ou quilombola e não ter concluído outro curso superior.
Na graduação, a Licenciatura em Formação de Professores Indígenas, criada em 2008, adota modelo intercultural que integra saberes tradicionais ao conhecimento científico. A Ufam também está expandindo sua atuação com o novo Instituto Intercultural de Educação, Saúde e Território do Rio Negro (IEST-Rio Negro), em São Gabriel da Cachoeira, que oferecerá cursos como Licenciatura Intercultural, Pedagogia Intercultural, Enfermagem e Licenciatura em Computação, com investimento de R$ 60 milhões via PAC.
“A frase é: Eu não abro mão de território, saúde e educação. A partir desse princípio, em São Gabriel da Cachoeira, teremos o curso de Licenciatura Intercultural em Formação de Professores Indígenas, Pedagogia Intercultural, Enfermagem e Licenciatura em Computação. Tudo isso, decidido em audiências públicas e com participação de lideranças indígenas, representantes da sociedade civil e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN)”, explicou a diretora do IEST, professora Danielle Gonzaga de Brito, do povo Munduruku.
Além disso, a Ufam está realizando o primeiro concurso público para docentes do IEST, com 456 candidaturas e reserva de vagas para indígenas, quilombolas, pretos, pardos e pessoas com deficiência. Em parceria com o MEC, também estão previstas licenciaturas específicas para os povos Yanomami e Munduruku, a serem realizadas em seus territórios, e a renovação do programa Saberes Indígenas na Escola.
Na pós-graduação, o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) reserva vagas para indígenas desde 2010, permitindo que dissertações e teses sejam escritas em línguas indígenas. O professor Gilton Mendes, coordenador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena, ressalta que a iniciativa busca oxigenar a disciplina com perspectivas indígenas. “Representava, antes, o interesse que tínhamos numa oxigenação da própria disciplina, abrindo-a para acolher a diferença, uma perspectiva outra. Estávamos interessados naquilo que os indígenas poderiam nos dizer, naquilo que não sabíamos e que a Antropologia ainda não tinha alcançado”, afirmou.